Não há duvidas de que as crianças crescidas nas décadas de 1960 e 1970 viveram uma infância muito diferente das gerações atuais. Em um mundo sem internet, celulares ou redes sociais, o tempo parecia correr de outra maneira.
Havia mais espaço para a descoberta espontânea, para a imaginação e até para o tédio, um elemento que, segundo especialistas, desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento emocional dessas gerações.
Limitadas por regras sociais da época ou, em alguns casos, privilegiadas por contextos familiares mais estáveis, muitas dessas crianças tinham algo que hoje parece raro: tempo livre.
Sem tecnologia para preencher cada minuto do dia, elas eram praticamente obrigadas a inventar o que fazer. E foi justamente dessa liberdade que nasceu um tipo de resiliência. Era uma habilidade construída no cotidiano, enfrentando pequenas frustrações e aprendendo a resolver problemas por conta própria.
A terapeuta Dra. Gloria Brame, PhD, lembra que o tédio era uma presença constante naquela época. E, curiosamente, isso não era necessariamente algo negativo. Pelo contrário: era o ponto de partida para a criatividade e para a autonomia.
"Sem iPhones, sem computadores e sem pais por perto tentando resolver todos os nossos problemas. Geralmente não tínhamos supervisão nem dinheiro, a menos que trabalhássemos como babás ou em empregos de meio período."
Sem distrações tecnológicas, o tédio funcionava como um convite silencioso para explorar o mundo real. Ler um livro, sair para jogar bola na rua ou simplesmente ir até o campo da escola para ver se algum amigo estava por lá eram atividades comuns. Muitas vezes, bastava um espaço aberto e um grupo de amigos para transformar uma tarde comum em uma grande aventura.
Esse tipo de infância pode ser observado em muitas histórias conhecidas. O apresentador do 'BBB 26', Tadeu Schmidt, nascido em 1974, por exemplo, já contou que cresceu em Brasília se divertindo nas ruas e nas quadras da cidade.
Mas a diferença entre gerações não estava apenas na ausência da tecnologia. Também havia uma filosofia de criação diferente por parte dos pais. A psicóloga Dra. Aline P. Zoldbrod, Ph.D., recorda que, naquela época, os adultos costumavam estimular mais a independência dos filhos.
“É a sua vida, vá vivê-la. O que quer que você faça, é sua decisão. Você faz as escolhas. Você pode lidar com as consequências.”
Isso não significa que os pais eram ausentes ou desinteressados, pelo contrário, havia diálogo e orientação, mas também uma compreensão de que errar fazia parte do processo de crescimento.
Muitas decisões eram tomadas em família, mas o peso final da escolha frequentemente recaía sobre os jovens, que aprendiam desde cedo a lidar com as consequências de suas atitudes.
Essa liberdade também fortalecia os laços entre amigos: aventuras compartilhadas, pequenas desobediências e descobertas coletivas criavam uma sensação de conexão, liberdade e entusiasmo pela vida.
Hoje, muitos especialistas observam que o controle constante exercido sobre as crianças, muitas vezes com a melhor das intenções, pode ter efeitos colaterais.
No fim das contas, aquela geração aprendeu uma lição que continua atual: a resiliência não nasce da perfeição, mas da experiência e muitas vezes começa em algo tão simples quanto uma tarde de tédio transformada em aventura.